-O Menino-
Ele era franzino, um moleque! Orgulhava-se muito do seu metro e sessenta, dos seus doze anos e da casinha de tábua torta, cujas paredes ele mesmo ergueu. Seu nome era Jiu. Sim, Jiu, e se fala assim mesmo, como se escreve. O nome também foi ele que escolheu, pois não havia quem lhe pusesse um. Jiu era profundamente só, mas não sabia disso. Gostava de Papai e de Mamãe, de fazer sombras na parede e encontrar saídas.
-Papai e Mamãe-
Jiu demorou muito até decidir como se chamaria, e, de fato, o esforço fora um tanto inútil, porque ninguém usava o tal nome. Papai e Mamãe eram mudos, ou só decidiram não falar nada, nunca, nadinha!
Vejamos, como um narrador apresentaria os pais do garoto a leitores tão pomposos e, suponho, tão cheios de conceitos como vocês? Pois bem, acompanhem com atenção, é difícil: Os dois eram extremamente janotas. Papai usava fraque e bengala, Mamãe tinha um chapéu enorme e véu de renda; e, a não ser por isso, eram absolutamente iguais; tinham olhos gigantes, fundos, nenhum sinal de boca, dedos em riste e pés pesados, parados. Papai e Mamãe ficavam colados na parede. Jiu mesmo havia os desenhado.
-O Milharal-
Ah, mas não se espantem, sentem-se de vez e leiam a história! Quero que saibam, meus caros, que Jiu não era um menino triste, não! Tudo bem, Papai e Mamãe eram meio carrancudos, a casinha era pequena e não se falava muito por lá, mas Jiu gostava de tudo, e sorria um sorriso paciente. O menino só não gostava era do milharal... O maldito milharal.
Nota 2: Breve explanação sobre o cenário: Jiu, sua casinha de três janelas, Papai e Mamãe colados na parede, o Sol no céu e milho; muito, muito milho. O milharal ia pra lá de onde a vista alcança, e até depois disso, se bobear!
Jiu já havia feito quatro 'grandes expedições' -assim chamava suas aventuranças para achar a saída daquele mar amarelo. Fazia diários de viagem, planejamento e tudo. Tinha ido longe, bem longe, mas retornava sempre. O moleque já não planejava mais. Agora só odiava profundamente aquela droga de milho.
Nota 3: Ei, você, leitorzinho de nariz empinado! Não fui eu quem fiz o pobre do garoto preso no meio do nada, não! Sou apenas o narrador, ora... Veja bem, ninguém o colocou ali, ninguém é responsável pela incrível solidão de Jiu. Nem Papai e Mamãe, nem eu ou você, e nem o próprio garoto. Vejo que é hora de tocar no assunto: existe gente sozinha. Gente numa solidão que não se imagina! Jiu, meu amigo, estava preso em si, e isso tudo foi a vida que fez. Não me olhe assim.
Ficava no caixote/casa a maior parte do tempo, mas saía, tinha de sair alguma hora. O milharal o saudava: 'Mais um dia, Jiu. Mais um dia!''. E ele rosnava de volta, odiando-o.
O Sol forte dourava tudo, e a sina de Jiu se perpetuava naquela solidão densa, lúgubre, quente. Ninguém ouviria se gritasse, ninguém compartilharia do seu reclame. O menino tentava, mas não conseguia: era profundamente nocivo encarar o milho. Corria pra casa. Se trancava lá dentro. Era mais sensato.
Nota 4: Ele continua ouvindo seu ''mais um dia'' pela manhã. Agora, releia o último período da nota 1, e comece a cuidar bem do seu Jiu.
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Nota 3: Ei, você, leitorzinho de nariz empinado! Não fui eu quem fiz o pobre do garoto preso no meio do nada, não! Sou apenas o narrador, ora... Veja bem, ninguém o colocou ali, ninguém é responsável pela incrível solidão de Jiu. Nem Papai e Mamãe, nem eu ou você, e nem o próprio garoto. Vejo que é hora de tocar no assunto: existe gente sozinha. Gente numa solidão que não se imagina! Jiu, meu amigo, estava preso em si, e isso tudo foi a vida que fez. Não me olhe assim.
Ficava no caixote/casa a maior parte do tempo, mas saía, tinha de sair alguma hora. O milharal o saudava: 'Mais um dia, Jiu. Mais um dia!''. E ele rosnava de volta, odiando-o.
O Sol forte dourava tudo, e a sina de Jiu se perpetuava naquela solidão densa, lúgubre, quente. Ninguém ouviria se gritasse, ninguém compartilharia do seu reclame. O menino tentava, mas não conseguia: era profundamente nocivo encarar o milho. Corria pra casa. Se trancava lá dentro. Era mais sensato.
Nota 4: Ele continua ouvindo seu ''mais um dia'' pela manhã. Agora, releia o último período da nota 1, e comece a cuidar bem do seu Jiu.
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And who's back?
Temporada literária está aberta: são os benditos dias em que a moçada fica vivendo de ócio, e o bichinho de escrever ataca. Viva!
Bem-vindos sejam os novos e velhos exploradores! Comentem ; )
-a belíssima expressão artística que ilustra o post é desta que vos escreve U.U-


Oi,
ResponderExcluireu sou o Jiu,
e vc acabou de me achar =//
Jius, uni-vos!
ResponderExcluirDe muito bom gosto teu espaço, ja me senti em casa! Ja to seguindo !
ResponderExcluirBeijos.
Querida, Lola Gessinger. (É, ainda não me acostumei ao divórcio u.ú)
ResponderExcluirHá muito tempo acompanho suas belas palavras, ora blog, ora twitter, mas só agora resolvi me manifestar.
Aprecio tudo que escreve, e gostaria de fazer um apelo para que apareça mais por aqui. Afinal, seus leitores precisam de suas palavras sempre, no mínimo uma vez por semana.
Atenciosamente,
Humberto também não se acostumou, não lida bem com isso. Triste... (rs)
ResponderExcluirQue vergonha a minha, tisc tisc tisc.
Apelo mais que ouvido e, espero, atendido. Farei um esforço.
Confesso que escrevo aqui por necessidade básica, é como beber água. Só que você sabe -também escreve coisas incríveis- que ego de poeta precisa ser massageado. Geralmente o OLV está tão deserto que me dói o coração.
Mas vejo aqui uma leitora fiel. Há razão para continuar me arranhando nas cercas. Muuuuito, mas muito obrigada ; )
Sei, sei...
ResponderExcluirExatamente por isso que resolvi me manifestar. Para que o seu ego se sinta estimulado e nos (me)dê essa dose semanal de boa literatura, tão rara ultimamente no mercado. Não se perturbe, se depender de moi o OLV nunca estará deserto. (:
Arranhe-se e deixe as palavras exercerem o poder curativo que lhe são depositado.
Imagine, eu que agradeço.
Um abraço.