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quarta-feira, 22 de junho de 2011

Confissão - Parte 4

            Condeno, com razão, algum interesse que algum leitor pode ter por algum texto deste gênero. Ler confissões, meu amigo, é errado; publica-las é já imoral. Mas este tipo de texto não depende nem da prepotência do autor que confessa, nem da curiosidade do leitor que corrompe. Ele só existe, e é estritamente necessário. Portanto, culpa e indecência a parte, divirtam-se:

-Submersão-
            A menininha que eu já fui um dia sorri irônica e diabólica, sem ter a mínima noção disso. Com seu um metro e cinquenta, milhares de ideias e três livrinhos amaçados de verso e desenho.
            E eu a vejo e choro porque ela é distante e aérea. Eu choro porque me lembro de como o sorriso, as ideias, a ironia e a inocência eram tão frágeis quanto o tempo, que assopra e dissipa todas as minhas boas histórias. Esqueça. Toda a minha única história, boa ou ruim, ninguém me disse nada ainda.
            Sabe, é que quando se tem onze anos, se inventa histórias e o seu mundo as escuta, elas passam a ser verdade. Mas quando se cresce, e a fantasia já não é mais permitida, e as histórias ficam cada vez mais permanentes e consistentes, aí sim tudo vira mentira. Mas não é isso, amigo, que faz esse processo doloroso; É a lembrança do que foi um dia que nos atinge com força no estômago.
            Eu chamo o vício em fantasia de submersão. Primeiro tem-se medo de afogar, mas depois se torna inconsequente. Chegará uma hora que você não vai conseguir nadar de volta. A falta de oxigênio irá te atordoar os sentidos, e então te fará viajar para o fundo, e aí, amigo, a superficie se torna tão ameaçadora quanto a morte. Eu tenho medo da superfície, eu tenho medo dos fatos e das reações, eu tenho muito medo de envolvimentos e de compromissos.

                                                      Estou fundo demais, ninguém me ouve.
                                                      A água é turva, ninguém me vê. Amém.
           


       Olá exploradores ; )
       Eu sei, eu sei, que havia prometido parar na parte 3...
       Bom, estou de férias, quer dizer que o rítimo antigo de dois posts por semana vai voltar por um tempo. Ahhh, férias, era isso que a Clarice queria, só não sabia que tinha nome sim!
       Espero que tenham gostado, graaaande abraço. Comentem!


Confissão parte 1
Confissão parte 2
Confissão parte 3

8 comentários:

  1. Brilhante, brilhante!
    Carla R.

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  2. Obrigada Carla ; ) seja bem vinda!

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  3. Que confissão mais profunda hein Lolita rs. Sabe que também ando meio submerso... Talvez no fundo todos estejamos, só que a maioria das pessoas não reconhece temer à superfície. Acho que Freud estava mesmo certo, ninguém consegue absorver a realidade completamente, o que nos leva a criar nosso universo à parte, com nossas ideias e fantasias, mas só quem tem um olhar poético sobre o mundo pode expor tudo isso de forma tão bela, como você fez =]

    Beijoos poetisa, e continue sempre a escrever!

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  4. Entendi o sentido do seu "estou fundo demais", mas não posso deixar de lembrar do livro O Mundo de Sofia...e te recomendar: suba, vá ao ápice dos pelos do coelho, jamais se deixe ficar confortável na base dos pelos.
    Abraço, boa semana!

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  5. Muito bom Lola, parabéns :D

    João wil

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  6. "É a lembrança do que foi um dia que nos atinge com força no estômago."
    Lembrar de tais lembranças é o que nos torna cada vez mais humanos e menos exactos...
    antes ser assim do que ser apenas um ser de pensamento mecanico (vazio).

    Que permaneça a fantasia e a imaginação....

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  7. Sabe lidar com as palavras. Mais ainda, sabe utilizá-las para permanecer nas profundezas poéticas.Uma pena que a água se torna mais fria no fundo do mar. Vai ver, nós, que tentamos "decalcar" os sentimentos, gostamos do frio, ou nos adaptamos à ele.
    Paz.

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  8. Este comentário foi removido pelo autor.

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