Quer ultrapassar a cerca? Vai doer!

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Póstumo


            Era janeiro de 1924, e o carma invernal da Inglaterra era visto na neve lamacenta da sargeta. Nós não tínhamos campo de lírios, muito menos casacos caros. Não gostávamos do verão pelo sol que dava, discretamente, o ar da graça, e pintava de um oliva luminoso a água das fontes. Gostávamos do verão pelo simples fato de odiarmos o inverno.
            E foi neste janeiro que a fumaça dos charutos passaram à anunciar trabalho para uma garotinha de 14 anos. Os homens passavam por nós e nos avaliavam, em custo e benefício. Após escolherem, levavam uma de nós para uma volta que apagávamos da memória, sempre. Era eu uma daquelas pequenas almas translúcidas, com cheiro de pó de arroz, lábios exageradamente pintados e olhos submissos, postas a prostituírem-se nas esquinas do subúrbio de Londres.
             Volta e meia visitávamos as catedrais anglicanas, quando algum senhor nos pagava charrete. As moças debutantes da alta sociedade não chegavam a ser nobres, mas eram divindades inatingíveis para as garotinhas assustadas e impudicamente vestidas. As madames nos olhavam temerosas e escandalizadas, e os garotos pequenos eram puxados com força para longe da nossa presença. As prostitutas indo à igreja, blasfêmia, blasfêmia!
            Mas só queríamos ver as famílias, ver as carriolas de doce e as igrejas de beleza devastadora. Queríamos ver homens que não nos cobiçassem, nem tivessem nojo ou pena. Queríamos arrancar o próprio rosto, e trocar por outro...
            Hoje, enferma aos setenta e quatro anos, escrevo um depoimento póstumo. Morrerei viúva de um rico banqueiro, que conheci na época dos quartos de pensão e lábios pintados. Morrerei prostituta injustiçada, violada e inocente, o que sempre fui. Morrerei com a verdadeira face. E como gostaria de ver seus olhares escandalizados, exatamente os mesmos daquelas madames de 1924. Logo vocês, tão acostumados com a casta e servil mulher de banqueiro, dedicada e amorosa. Como gostaria de dizer-lhes que são tão culpados pela libertinagem daquelas garotas quanto seus aproveitadores, e que a igreja anglicana simplesmente não tem aval para perdoar tal pecado. Adeus.

                      


          Olá exploradores.
          Este texto foi escrito todinho no celular (ai, meus polegares). Fazer o que, era o que tinha e se não escrevesse, ia enlouquecer.  
          Ah! Vou deixar aqui do lado os banners do blog, para divulgação. Ajude o O.L.V. colocando o selo com o link na sua página ; ) Agradecemos!
          Grande abraço pessoal. Até a próxima, comentem!
        

6 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Noss Lolita, que texto maduro e inteligente, daria um belo romance! Consegui até sentir o clima frio descrito (e por algum motivo lembrei da sensação que tive ao ler A Menina que Roubava Livros). Mas que bom que o escreveu hein, apesar da dor nos polegares, hehe. Sei como é esse 'desespero' pra não perder a ideia, hoje mesmo acabei escrevendo o rascunho de um conto no caderno enquanto estudava, apesar de estar acostumado a digitar sabia que ligar o computador acabaria me atrapalhando, enfim ~~ se um dia escrever um 'romance póstumo' vou querer meu exemplar autografado \o/

    Quando eu vencer a preguiça e organizar meu blog ajudo a divulgar o seu /o

    beijos e continue sempre a escrever!

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  3. LoLy... demais seu texto... muito,muito bom! E q dózinha dos seus dedinhos.. akakakkaka Bju linda!

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  4. Muuuito obrigada pessoal ; ) Continuem ultrapassando suas cercas.

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  5. comovente em todos os sentidos! ;** perfeito seu blog

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  6. Obrigada, Alexandra. Continue por aqui ; )

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